ela.

– então, li que você precisa amarrar uma corda forte e colocar em um lugar que aguente seu peso e desconecte a coluna do pescoço, não dói, parece que acontece em segundos.

– você não tava pensando em fazer isso no ventilador né?

risadas.

– não! eu sei que não aguentaria meu peso.

– e nem com uma corda de varal?

– era o que eu tinha na hora.

– é mais fácil ir na favela e pedir pra tomar um tiro.

– sim. mas não tenho coragem.

[…]

– ninguém me deixa falar isso com tanta naturalidade.

– é porque é meio mórbido né?

 

sussurros espelhados

eles estavam deitados numa cama, o sol estava se escondendo entre as montanhas. não tinham muito o que falar, bastava a presença. na verdade, tinham medo de dizer, era como se aquelas palavras nunca pudessem sair e elas estavam presas por amarras muito mais fortes do que podiam entender, por isso o mais fácil era ficar em silêncio.

Sua mãe tinha chego.

– Oi, João, voltei. Vou fazer sanduíche pra você e pro Pedro, tudo bem? Só um segundo.

– Me avisa quando tiver pronto. Estamos aqui no quarto jogando. – então ligou seu ps3 e continuou a jogar. Sem pensar muito na sua atitude, acabou tendo que levantar da cama e separar-se dele. Era estranho interromper aquele momento tão abruptamente. Qualquer barulho quebrava o invólucro que estavam e isso o incomodava. Ele olhou de relance para o outro e sorriu, este se sentou e começaram a conversar sobre o jogo novamente.

Eram 21h quando ele foi embora, mas sabia que não terminaria ali. Eles passariam o resto da noite conversando até chegar num ponto que não há mais nada para ser dito e não dá pra fugir do silêncio. João aguardava por isso, tinha quase certeza que Pedro também. Deu 03h da manhã, Pedro disse no skype:

– Essa é a hora que os demônios saem pra assombrar.

– Affe, então fica aqui pra me fazer companhia. – falou isso sem pensar e sem querer, criou o silêncio que os dois não sabiam o que dizer. Ele teve que cortar quando lembrou-se que provavelmente aquilo não continuaria por muito mais tempo, eles não teriam mais aqueles silêncios. Pedro estaria daqui há 3 semanas em um intercâmbio do governo na França. João sentia que tinha tanto para dizer mas não sabia como, era um peso – na verdade, era uma pedra em seu coração que parecia cada vez maior toda vez que ele sentia que não conseguia  e, ele se perguntava, por que é tão difícil? – por isso continuou – Alguma notícia da viagem?

– Não. – Pedro cortou de forma brusca como se esperasse por algo. Não conseguiria dizer nada ali pelo computador. Tinha aquele pensamento que as melhores coisas são ditas e feitas pessoalmente.

Suspiro.

Eles se olham pela tela do computador. Os dois sabem que há coisas para serem ditas, mas esse sussurro é melhor, é fácil. Sorriem.

– É… amanhã vou aí ou você vem aqui? – pergunta Pedro

– Tanto faz

– Tenho que te devolver teu livro, amanhã meus pais voltam só 19h, passa aqui e pega. É melhor, porque tenho que te mostrar umas coisas pra viagem.

No dia seguinte parecia novamente um filme repetido. Eles tinham conversado, Pedro mostrou as coisas da viagem, inúmeras roupas, acessórios e malas, jogaram, mas acabaram deitados na cama.

– Tá calor né?

– Sim. Mas daqui a pouco, você vai estar num frio congelante. Será que é que nem naqueles filmes que o cara vai pra um país muito frio, fica sozinho, fica muito triste porque há pouco sol?

– Provável. – riu

– Então pensa no dia de hoje. Nós dois deitados numa cama quente.

– Sim… – Pedro pegou na mão dele, enquanto continuava. – E no que você vai pensar nesse calor?

– Vou pensar em você sozinho numa cama com frio.

– Mas isso é meio triste, não?

– Sim, mas é melhor do que estar sozinho, digo, sem ninguém, sabe?

– Verdade.

 

Não sei bem por onde começar, mas sinto que preciso escrever tão rápido quanto eu posso e tão intenso quanto conseguir. Tenho medo das palavras me dominarem e me engolirem nelas entre os meios, os fins, as vírgulas, os espaços para respirar – não é uma coisa que existe em mim – não há espaço para respirar. Não há espaço para tanta coisa e, mesmo assim, cismo em enfiar coisas, socá-las para dentro. É mais fácil enfiar inúmeras coisas sem realmente pensar no que está acontecendo e quando você realmente pensa no agora e na quantidade de coisas a sua volta… não, você não pensa. Ainda não sei muito bem sobre o que quero escrever, mas sei que preciso disso.

É tão fácil simplesmente sentir-mal constantemente, ficar preso na teia de pensamentos doentios e nocivos, não quero ser assim, mas sinto como minha cabeça entrasse nesse mundo doentio por vontade própria. É tão mais fácil assim, não? É tão mais fácil admitir que é o perdedor, as pessoas adoram um perdedor, adoram enfiar na lama, ver sangue, sofrimento, dor, agonia, elas simplesmente amam isso, porque saber que alguém está bem e nada que você fizer o atinge é demais para aguentar. A felicidade é a coisa mais corrosiva que existe, ela destrói os outros e, por isso, os outros te destroem.

estilhaços

como dizer essas palavras que parecem soltas? essas que ficam presas na garganta arranhando, enrolando fios dentro da minha boca? palavras que não tenho coragem de dizer. essas coisas que parecem conectadas, presas em si mesmas, enroladas num pano de papel e entregues à mim pelo vento? lembranças. elas andam com o vento, com sua falta de rotina, atravessam mundos, agitam-se, batem na parede, sacodem casas, arrastam tudo em volta de si, destroem.

fecho os olhos e os estilhaços de memória vão rasgando e cortando minha pele, meus braços, meu rosto, sentindo toda a maré de poeira doida em meus ossos, meus olhos, meus braços.

o tempo volta, preciso abrir os olhos. preciso precisar. preciso de tantas coisas deixadas por mim em volta do caminho, deixei roupas, livros, sapatos sonhos cadeiras relógios tapetes tijolos dedos anéis chaveiros pulseiras gargantilhas chaves

voltar é como andar para trás, reconstruir, remodelar, montar aos avessos tudo. logo, roupas sonhos livros sapatos gargantilhas relógios sonhos anéis dedos chaves chaveiros tijolos tapetes.

 

 

insônia

as luzes entre-acessas no quarto, aquelas meias palavras não ditas – aqui, sempre presentes – a falta, o suspirar soturno da madrugada correndo como monstro entre os dedos dela, enrolando em seus cabelos cochichando o passado. as memórias parecem poeira nos livros, na estante, na mesa e em todos os móveis e a lembrança é o sopro, é a limpeza.